Pele
Rosácea: o que piora a vermelhidão no rosto, como descobrir seus gatilhos e como tratar
Resposta rápida: A rosácea é uma doença inflamatória crônica que causa vermelhidão no centro do rosto, vasinhos, ondas de calor e, às vezes, bolinhas parecidas com espinhas. Ela piora com gatilhos como sol, calor, álcool, bebidas quentes, comidas apimentadas, cosméticos irritantes e uso de corticoide no rosto. Não tem cura definitiva, mas pode ser controlada combinando a identificação dos gatilhos pessoais, cuidados com a pele, medicamentos e, para vermelhidão e vasinhos, luz intensa pulsada.
“Doutor, minha pele é sensível. Fico vermelha com tudo.” Muitas vezes, essa pele sensível tem nome: rosácea. É uma doença comum, que afeta cerca de 5% dos adultos, segundo uma análise de estudos de vários países, e que costuma levar anos até ser diagnosticada.
Os medicamentos são importantes, mas boa parte do controle da rosácea está no dia a dia: descobrir o que faz a sua pele piorar e aprender a lidar com isso sem viver de restrições.
O que é a rosácea
A rosácea é uma doença inflamatória crônica da pele do rosto. Os vasos e os nervos da pele ficam mais reativos, e estímulos que outras pessoas nem percebem, como calor ou uma bebida quente, provocam vermelhidão e ardência.
Os sinais mais comuns, que podem aparecer juntos ou separados, são:
- Ondas de vermelhidão e calor (flushing), que vêm e vão
- Vermelhidão persistente no centro do rosto: bochechas, nariz, queixo e testa
- Vasinhos visíveis (telangiectasias)
- Bolinhas vermelhas e com pus, parecidas com espinhas
- Ardência, queimação e sensibilidade a cosméticos
- Espessamento da pele, principalmente no nariz (rinofima), mais comum em homens
- Sintomas nos olhos: ardência, sensação de areia, olho seco, vermelhidão e terçol de repetição
É mais comum em mulheres e costuma aparecer a partir dos 30 anos, com mais casos entre os 45 e os 60, mas homens também têm, muitas vezes em formas mais intensas. E não é uma doença só de pele muito clara: em peles morenas e negras, comuns no Brasil, a vermelhidão é menos visível e a rosácea tende a ser pouco diagnosticada. Nesses casos, a ardência, a sensibilidade a produtos e a piora com os gatilhos clássicos ajudam no diagnóstico.
Rosácea não é acne
As bolinhas da rosácea lembram espinhas, mas a rosácea não forma cravos, e o tratamento é diferente. Alguns produtos para acne, como esfoliantes e ácidos fortes, podem piorar bastante a rosácea. Se você trata “acne” há anos sem melhora e tem vermelhidão no rosto, vale reavaliar o diagnóstico. Explico o tratamento da acne em outro artigo.
Os gatilhos: o que piora a rosácea
Os gatilhos não causam a rosácea, mas provocam as crises e, com o tempo, ajudam a manter a vermelhidão. Eles variam muito de pessoa para pessoa: o que piora muito a pele de um paciente pode não fazer diferença para outro.
Sol
É o gatilho mais frequente. A radiação do sol inflama a pele e estimula a formação de novos vasinhos.
- Use protetor solar todos os dias. Para peles reativas, os protetores com filtros minerais (óxido de zinco e dióxido de titânio) costumam ser mais bem tolerados
- Prefira protetores com cor, que também protegem contra a luz visível e ajudam a disfarçar a vermelhidão
- Complemente com chapéu e evite o sol nos horários de maior intensidade
Calor e mudanças de temperatura
Calor é um dos gatilhos mais fortes: dias quentes, sauna, banho muito quente, ficar perto do fogão ou do forno, ambientes fechados e aquecidos. O frio intenso e o vento também podem irritar a pele.
- Prefira banhos mornos e rápidos no rosto
- Em dias quentes, procure ambientes frescos e use água termal ou compressas frias quando sentir a pele esquentar
- Proteja o rosto do vento e do frio com cachecol ou gola
Exercício físico
O exercício intenso esquenta o corpo e pode provocar vermelhidão, mas não é motivo para parar de se exercitar. Algumas medidas ajudam:
- Treine em horários e ambientes mais frescos, com ventilador ou ar-condicionado
- Faça intervalos e beba água gelada
- Tenha uma toalha úmida e fria por perto
- Prefira, quando possível, atividades de intensidade moderada ou divididas em blocos
Bebidas quentes: o problema é o calor, não o café
Um estudo clássico mostrou que o café quente provoca vermelhidão em pessoas com rosácea, mas o café frio, não. A água quente teve o mesmo efeito do café quente. Ou seja, o gatilho é a temperatura da bebida, e não a cafeína.
Um grande estudo americano, com mais de 82 mil mulheres acompanhadas por 14 anos, até encontrou menor risco de rosácea em quem tomava mais café com cafeína. Por isso, não há motivo para cortar o café: deixar a bebida esfriar um pouco antes de tomar já costuma ajudar.
Álcool
No mesmo estudo americano, quanto maior o consumo de álcool, maior foi o risco de desenvolver rosácea, principalmente com vinho branco e destilados. O álcool também é um gatilho frequente de crises de vermelhidão, e o vinho tinto é um dos mais citados pelos pacientes. Reduzir costuma ajudar. Explico a diferença entre a crise de rosácea e o rubor que algumas pessoas têm ao beber no artigo sobre álcool e pele.
Comidas apimentadas e outros alimentos
Pimenta e comidas muito condimentadas ativam os mesmos receptores de calor da pele e são gatilhos frequentes. Também são citados:
- Alimentos com cinamaldeído, como canela, tomate, frutas cítricas e chocolate
- Alimentos ricos em histamina, como queijos curados, embutidos e vinho
Mas é preciso cuidado: não há estudos de boa qualidade mostrando que dietas de exclusão melhoram a rosácea. Cortar uma longa lista de alimentos sem saber se eles realmente pioram a sua pele só torna a alimentação mais pobre e difícil. O caminho é observar o que pesa no seu caso, com o diário de gatilhos.
Estresse e emoções
Situações de estresse, ansiedade e vergonha estão entre os gatilhos mais relatados pelos pacientes. Ficar vermelho em público costuma gerar mais ansiedade, que provoca mais vermelhidão. Controlar a rosácea ajuda a quebrar esse ciclo, e cuidar do sono e do estresse faz parte do tratamento, como explico na minha abordagem.
Cosméticos e cuidados com a pele
A pele com rosácea tem a barreira de proteção mais frágil e reage com facilidade. Costumam piorar:
- Produtos com álcool, perfume, mentol, cânfora ou eucalipto
- Esfoliantes, buchas, escovas de limpeza e sabonetes fortes
- Ácidos e retinoides usados sem orientação
- Excesso de produtos e trocas frequentes
O que ajuda é uma rotina simples: sabonete suave, hidratante para pele sensível e protetor solar. Ao testar um produto novo, aplique antes em uma pequena área, como perto da orelha, por alguns dias.
Corticoide no rosto: o gatilho que mais engana
Pomadas e cremes com corticoide, muitas vezes usados por conta própria ou indicados para “alergia” no rosto, deixam a pele menos vermelha nos primeiros dias. Com o uso contínuo, porém, eles podem piorar a rosácea ou provocar um quadro parecido, com vermelhidão, vasinhos e bolinhas.
Ao suspender o corticoide, a pele costuma piorar de forma intensa por algumas semanas, o chamado efeito rebote, o que leva muita gente a voltar a usar. Não use corticoide no rosto sem orientação, e não suspenda por conta própria se já estiver usando há muito tempo: a retirada deve ser planejada com o dermatologista.
Medicamentos
Alguns medicamentos podem provocar vermelhidão no rosto ou piorar a rosácea, como certos vasodilatadores e a niacina (vitamina B3) em doses altas, que é diferente da niacinamida usada em cosméticos. Não suspenda nenhum remédio por conta própria: leve a lista para a consulta.
Diário de gatilhos: como descobrir os seus
Como os gatilhos variam muito, a forma mais prática de identificar os seus é anotar, por duas a quatro semanas:
- Quando a pele piorou: data, horário e intensidade
- O que aconteceu nas horas anteriores: alimentos e bebidas, exposição ao sol ou ao calor, exercício, situações de estresse, produtos novos
- Quanto tempo durou a crise
Depois de algumas semanas, os padrões costumam aparecer. A ideia não é evitar tudo, mas reconhecer os gatilhos que realmente pesam e decidir, com informação, o que vale a pena mudar.
Tratamento: de acordo com os sinais de cada pessoa
O tratamento é montado conforme os sinais que predominam, e quase sempre combina mais de uma estratégia. Os consensos internacionais recomendam buscar o controle mais completo possível dos sinais, e não se contentar com uma melhora parcial.
Bolinhas inflamadas
- Medicamentos tópicos: a ivermectina tópica, o ácido azelaico e o metronidazol estão entre as opções com melhor evidência. Em um estudo com 962 pacientes, a ivermectina tópica reduziu mais as lesões inflamatórias do que o metronidazol em 16 semanas.
- Medicamentos orais: nos casos moderados a graves, antibióticos da família das tetraciclinas em doses baixas, usados pelo efeito anti-inflamatório. Nos casos que não respondem a esses tratamentos, uso a isotretinoína em doses baixas, com acompanhamento e exames.
Vasinhos e vermelhidão persistente: luz intensa pulsada
Os cuidados com os gatilhos e com a pele são a base para reduzir a vermelhidão ao longo do tempo. Para os vasinhos e a vermelhidão que não passa, o tratamento que mais uso é a luz intensa pulsada, que atua nos vasos dilatados. Em alguns casos, também uso o laser Nd:YAG. Costumam ser necessárias algumas sessões, e manutenções periódicas ajudam, porque a rosácea continua ativa. Veja os procedimentos de dermatologia estética que realizo.
Espessamento do nariz (rinofima)
Nas fases iniciais, a isotretinoína pode ajudar. Quando o espessamento já está estabelecido, o tratamento envolve procedimentos, como o laser de érbio ablativo, que remodela a pele. Nos casos muito avançados, com grande aumento do nariz, o tratamento é cirúrgico, e encaminho para um especialista nesse tipo de cirurgia.
Olhos
Ardência, olho seco e terçol de repetição podem ser sinais de rosácea ocular. Nesses casos, o tratamento é feito junto com o oftalmologista, com cuidados com as pálpebras e, quando indicado, medicamentos.
Quanto tempo leva
Os medicamentos para as bolinhas inflamadas costumam mostrar resultado entre 8 e 12 semanas. A vermelhidão e os vasinhos respondem mais aos cuidados diários e aos procedimentos. Como a rosácea é crônica, depois do controle vem a manutenção, com cuidados com a pele, atenção aos gatilhos e, quando necessário, novos ciclos de tratamento.
Nem toda vermelhidão é rosácea
Outras condições também deixam o rosto vermelho, como a dermatite seborreica, a dermatite perioral, as alergias de contato, a acne e, mais raramente, doenças autoimunes como o lúpus. Cada uma tem tratamento diferente, e algumas pioram com produtos usados para as outras. Por isso, o diagnóstico é feito no exame da pele, com dermatoscopia, e, quando necessário, exames complementares.
Quando procurar um dermatologista
Procure avaliação se você fica vermelho com facilidade, tem vermelhidão que não passa, vasinhos no rosto, bolinhas que não melhoram com produtos para acne, ardência com cosméticos, ou se já usou corticoide no rosto e a pele piorou. Na consulta, confirmo o diagnóstico, ajudo a identificar seus gatilhos e monto um tratamento de acordo com os sinais e a rotina de cada pessoa. Veja também como trato a rosácea e outras condições na dermatologia clínica.
Referências
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Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta. Cada caso precisa de avaliação individual.